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Rapazes entram no mundo das drogas mesmo sabendo que morrerão cedo

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Criado em Sexta, 06 Janeiro 2012

Jovens trajados de bermuda, boné e camisa larga seguram cigarros de maconha entre os dedos. Eles estão na esquina de uma quadra de Ceilândia Sul. A bicicleta de Fernando* custa R$ 800 e o casaco de André*, R$ 250. Ambos comprados com dinheiro da correria (assaltos) e do tráfico de drogas. Eles oferecem crack à luz do dia para quem quiser curtir uma “lombra” (veja gírias abaixo) e viver como zumbi pelas ruas. Ficam ali para sustentar o vício e comprar roupas e tênis de marca. Para isso, matam ou morrem, se for preciso. Acreditam ser os donos do lugar. “Aqui, é a gente quem manda”, garante André.

Para a segunda reportagem da série “Jovens no crime”, o Correio entrevistou, durante três dias, garotos da periferia de Ceilândia. Todos têm uma realidade em comum: são carentes de estrutura familiar e de informação, a maioria não terminou o ensino médio, não trabalham e são dependentes químicos. Neste submundo marcado pela opressão, intolerância e falta de perspectivas, os jovens compartilham as frustrações e se entregam à criminalidade. Começam aí as guerras, os assaltos, o vício e o desespero da sociedade. Os adolescentes não se importam quando morre um dedo-duro ou um “herói”, como eles chamam as pessoas que reagem a assalto. “Se morreu é porque fez alguma coisa. Santo ele não é. É ‘paia’ matar, mas antes a mãe dele chorar do que a minha”, disse friamente Eduardo*, 16 anos.

O menino de baixa estatura e corpo franzino mora com a mãe. Ele não conhece o pai. Eduardo comete, em média, três furtos por semana e costumava cheirar cocaína aos sábados. “Mas, nos últimos dias, tenho cheirado sempre”, admitiu. Ele ainda é o responsável por assumir todos os flagrantes dos colegas pegos pela polícia. “Qualquer coisa eu assumo. Uma mão ajuda a outra e, no crime, é assim. A gente tem que sustentar a culpa até o fim porque, para quem é caguete, não tem perdão. Para mim, não dá nada e, para os ‘de maior’, já é pior. O máximo que vão fazer comigo é me levar para a delegacia e chamar minha mãe para me soltar”, disse. “‘De menor’ tem que roubar mesmo porque não dá nada. O máximo que ele fica preso é 45 dias”, justificou Fernando, durante a conversa com a reportagem.

Eduardo começou a fumar maconha aos 13 anos. Conheceu a droga por meio dos amigos da rua. Assumiu muitos crimes, mas nenhuma vez foi parar no Centro de Atendimento Juvenil Especializado (CAJE). “Nessa vida que eu levo, sei que um dia vou rodar. Para entrar é a coisa mais fácil, mas, para sair, é difícil. Se eu tivesse uma ocupação, era outra história”, acredita. Ao contrário de Eduardo, Fernando não teve a mesma sorte. Por diversas vezes, dividiu cela com seis adolescentes. “É um cubículo, mas lá tem oficina, escola e até igreja. Eu saí de lá praticamente um santo, mas é só cair pra rua de novo que a coisa muda”, contou o rapaz, que, além de viver no crime, trabalha como gesseiro. “O dinheiro que eu ganho é muito pouco e, por isso, faço as ‘correrias’”, justificou o rapaz, de 18 anos.

Entre os artigos do Código Penal Brasileiro infringidos por Fernando quando adolescente está o 155 (furto), o 157 (roubo), o 180 (receptação) e o 150 (violação de domicílio). “Minha mãe trabalha e só chega à noite. Quando ela vê, já aconteceu”, revelou o rapaz. Para não atrair a atenção da polícia para a região, o grupo não deixa os comerciantes serem assaltados. “A gente desce lá pra Taguatinga”, contou. Eles também não têm curiosidade de experimentar o crack. “Pra quê? Para ficar parecendo um bicho por aí? Quem usa crack tem mente fraca”, disse Fernando.

O relatório Situação da Adolescência Brasileira, divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), analisou as condições de meninos e meninas entre 12 e 17 anos e apontou a desigualdade social à qual estão expostos. No Distrito Federal, há 261.491 nessa faixa etária (10,2% da população), dos quais apenas 0,9% trabalhava e 4,1% não estudavam e não trabalhavam em 2009. Entre jovens de 16 e 17 anos, 62,4% concluíram o ensino fundamental, média acima de todo o Brasil, de 51,1%. Os crimes violentos foram responsáveis, em 2009, por uma média de 36,6 mortes de adolescentes entre 12 e 17 anos a cada 100 mil habitantes.

Faculdade
André, 19 anos, é quem tem a melhor condição financeira do grupo. Ele é filho de funcionários públicos e terminou o ensino médio. O jovem conta ter vivido a primeira experiência no mundo do crime aos 12. Na escola, conheceu a maconha e, depois, começou a usar lança-perfume e cocaína. “Tô com o nariz todo entupido. Passei a noite toda cheirando”, revelou, sentado na calçada do quadradão onde ele se encontra com os colegas todos os dias. Em casa, ele fala que ninguém o critica. “Eu fumo maconha com a minha mãe. Meus pais não gostam dessa minha vida, mas não adianta eles falarem nada porque sou muito ignorante. No momento em que eu entrei no crime, passei a ser responsável por mim mesmo”, argumentou.

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André não sabe explicar o motivo de ter entrado para a criminalidade, mas pensa em fazer faculdade. “Eu queria ter nível superior, mas não daria certo topar com os playboys. A gente que é da periferia sofre muita opressão deles”, contou. Hoje, o jovem vive da venda de drogas. Ele não fica com as pedras no bolso da bermuda para não correr o risco de ser preso em flagrante. André só busca o crack no momento da solicitação do cliente e está sempre olhando para os lados para saber se está sendo vigiado. Ele repete o cuidado com o armamento. O jovem traficante contou ao Correio que o revólver calibre .38 fica escondido em locais estratégicos. “A gente só usa em assaltos longe daqui ou quando a gente vê os rivais subindo para a nossa quadra”, contou.

Nos fins de semana, muitos passam a madrugada usando drogas em um estabelecimento abandonado. Do lado de fora, tudo parece normal. As grades estão trancadas com cadeado. “A gente tem a chave”, revelou André. Ele ainda é o responsável em dirigir um Opala com teto solar para fazer acertos de contas, ou seja, as chamadas “matanças”. Quando um amigo do grupo é assassinado, não passa muito tempo para a morte ser vingada. As armas usadas por eles vão desde pistola até metralhadora, espingarda calibre .12, revólveres calibres .38 e .12, além de outras feitas artesanalmente. Em crime encomendado, eles vestem um casaco com capuz e apenas dois furos na altura dos olhos. Nessa roupa estão o símbolo do demônio do lado do braço e, atrás, a expressão “game over” — fim de jogo.

*Nomes fictícios

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O sistema deficiente de recuperação de jovens infratores


Gírias

» Boca do dragão
vai para o inferno

» Bocada
local onde ficam os donos da boca

» Bagulho
coisa, droga

» Canas
policiais

» Caguete
dedo-duro

» Capas
inimigos, policiais

» Correria
furto, roubos

» Deixa baixo
deixa quieto

» Enrolar um
preparar o baseado

» Esparrar
divulgar, mostrar

» Herói
Pessoa que se faz de polícia. Exemplo: aquelas que reagem a assalto

» Lombra
alucinação, na maioria das vezes causada pelo uso de entorpecentes

» Máquina
pistola

» Paia
chato

» Pano
roupa de grife

» Papelote
cocaína

» Pé de pano
Sujeito que age de forma sorrateira, sem alarde, sem fazer barulho

» Promoção
objeto de valor dentro de um carro

» Quadrado
arma, revólver

» Quebrada
local onde se concentra gente do mesmo grupo

» Trezoitão
revolver calibre .38


Palavra de especialista

Faltam oportunidades

“Nesses 21 anos de Estatuto da Criança e do Adolescente, tivemos avanços nos direitos da infância, de 0 a 12 anos, mas existe dívida grande com o direito dos adolescentes. Eles têm dificuldade de inclusão no mercado de trabalho e boa parte das oportunidades é para jovens que, de alguma forma, têm um respaldo familiar. Os programas na área social e de inclusão não atingem os jovens que mais necessitam de proteção. É preciso que haja programas de bolsa formação, com subsídio financeiro e acompanhamento de equipe técnica multidisciplinar para que o jovem não desista da oportunidade oferecida. O sistema de ensino também tem de ser mais atrativo. A escola não faz muita questão de que os jovens em situação de risco continuem estudando. À medida que o adolescente procura uma vaga no mercado de trabalho, um curso técnico, ele acaba sendo convidado a se inserir na boca de fumo ou em grupos criminosos, aderindo a uma proposta ilusória de poder e ascensão social oferecida pelo tráfico de drogas. Se o poder público não inclui, o crime organizado o faz.”

Ariel de Castro Alves, diretor presidente da Fundação Criança e vice-presidente da Comissão Especial da Criança e do Adolescente da OAB

Fonte: Correio Braziliense

www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/

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